O Tesouro Mais Precioso: um drama instigante sobre o Holocausto
Vamos esclarecer algo importante: a animação não é um gênero cinematográfico, mas sim um método para fazer filmes. Esse procedimento, que abrange várias técnicas, pode contar todos os tipos de histórias e se relacionar com clichês de qualquer gênero. Isso não significa, porém, que escolher a animação não abre – à semelhança de qualquer outro método artístico – possibilidades únicas para os cineastas, trazendo liberdades e limitações inexistentes no live-action. Nessa perspectiva, é complicado encontrar uma justificativa convincente para Michel Hazanavicius ter optado por fazer O Tesouro Mais Precioso: um drama instigante sobre o Holocausto em animação.
Há de se considerar que a história é apresentada como um conto de fadas, com narração em off do renomado ator francês Jean-Louis Trintignant. Essa narração introduz uma ambientação rural durante a Segunda Guerra Mundial utilizando a linguagem dos livros infantis, ainda que prometa abordar temas e horrores muito adultos. Pode parecer natural associar animação com esse tipo de narrativa mágica, contudo, existem várias obras cinematográficas que combinam narrativas mágicas da infância com a realidade do live-action para criar um clima de conto de fadas sombrio, como O Labirinto do Fauno e Desventuras em Série.
Além disso, O Tesouro Mais Precioso: um drama instigante sobre o Holocausto, adaptado por Hazanavicius do livro de Jean-Claude Grumberg, é na verdade uma história bem singela. Apesar do pano de fundo denso da Segunda Guerra Mundial e seu foco em uma história secundária do Holocausto, o roteiro é composto por ações simples e diálogos despojados de qualquer sofisticação desnecessária. Há um eco de O Artista aqui, onde a experiência de Hazanavicius em emular o cinema mudo impacta Cargoes na maneira que ele estrutura as relações entre os personagens, privilegiando mais os significados visuais, como posicionamentos, olhares e atos dramáticos, do que os diálogos.
Um conto de fadas simples não necessariamente justifica o uso da animação. A impressão deixada por O Tesouro Mais Precioso: um drama instigante sobre o Holocausto é que Hazanavicius optou pela “saída mais fácil” para contar uma história que claramente tem significado para ele, mas não o suficiente para investir tanto – em dinheiro, fisicalidade e capital social – quanto investe em seus outros longas-metragens. Talvez seja uma tentativa de apelar ao emocional mais básico do público, de desarmar o cinismo que o rótulo “filme de Holocausto” carrega atualmente. Possivelmente, ele considera que a animação, ainda vista como uma mídia infantil, permite mais emoções primárias, texto literal e manipulação descarada.
Nada simboliza isso mais do que a trilha sonora de Alexandre Desplat. Vencedor de dois Oscars por O Grande Hotel Budapeste e A Forma da Água, o compositor francês aqui regride a orquestrações estridentes e fáceis, evocando tragédia e elevação sem qualquer graça melódica. Não há melancolia ou aspiração, apenas choque, choque e mais choque. Talvez, daí venha também o design de personagens grosseiros e prosaicos do filme, frequentemente em conflito com a belíssima evocação dramática dos cenários ricamente desenhados onde estão inseridos. É simbólico de um longa que, apesar de esboçar bem as grandes emoções de sua história, falha na execução íntima dessas mesmas emoções.
Por isso, a nota final de delicadeza que O Tesouro Mais Precioso: um drama instigante sobre o Holocausto reserva para si e para o público está na narração de Trintignant, que deixa o tom professoral de lado e adota um tom poético ao refletir sobre narrativas, existência e inexistência, sobre o amor que se perde no giro imprevisível do tempo e no cinismo implacável do homem. Tudo o que o filme pareceu não reconhecer nem se engajar ao longo dos quase 80 minutos anteriores é elucidado nesta narração. É uma demonstração de perspicácia que Hazanavicius talvez devesse ter apresentado mais cedo, mas que, de qualquer forma, pinta em tons favoráveis seus tropeços mais bem-intencionados.
