O Homem nas Trevas 2: do suspense ao humor inesperado
Com o lançamento de O Homem nas Trevas em 2016, o público foi envolvido pelos diversos elementos do terror orquestrados por Fede Alvarez. O filme apresentou um ambiente silencioso e uma construção de tensão que se tornaram memoráveis. A trama gira em torno de um homem cego, que utiliza suas habilidades assustadoras para se proteger de três invasores. Essa combinação de um roteiro contido e um twist inesperado transformou a história de invasão em uma experiência aterradora com desdobramentos surpreendentes. O sucesso financeiro do filme, que se tornou uma das principais bilheteiras da Sony naquele ano, não deixou de garantir uma sequência, atualmente lançada em 2021.
O que se destaca em O Homem nas Trevas 2 é a forma como ele se afasta do que fez sucesso no original. Embora o belo desempenho de Stephen Lang como o Homem Cego esteja presente, a sequência traz uma narrativa que, embora contenha seus próprios twists, é marcada por uma trama tão absurda que a tensão do primeiro filme se perde em meio a cenas que favorecem a ação em detrimento do suspense. Nesta nova trama, o Homem Cego leva uma vida com sua filha pequena, cercado por uma dinâmica superprotetora e sombria relacionada ao seu passado.
A jovem Phoenix, interpretada por Madelyn Grace, é mantida isolada e educada em casa, mas também é treinada em técnicas de fuga e autodefesa, habilidades que se revelam úteis quando bandidos invadem sua casa com motivações desconhecidas. A falta de compreensão sobre os invasores e suas intenções resulta em uma desconexão com o público. Enquanto no primeiro filme é possível criar empatia pelos personagens, na sequência somos apresentados a um vilão lutando contra adversários estranhos, dificultando a identificação por parte dos espectadores.
O filme tenta emular a atmosfera tensa do original, dedicando boa parte de sua duração a um jogo de gato e rato na casa do Homem Cego, mas falha em manter a expectativa. A ênfase desmedida na violência e no sangue compromete o que poderia ser uma construção cuidadosa de suspense e desconsidera as habilidades singulares do protagonista, que aqui é retratado mais como uma força inquebrável no estilo de Michael Myers.
A direção de Rodo Sayagues, embora menos eficaz do que a de Alvarez no primeiro filme, não é o principal ponto fraco. Na verdade, o problema está em um roteiro que prioriza um ritmo acelerado. O twist da sequência também não se compara ao original, mesmo possuindo um certo charme. Sem revelar demais sobre a trama, é possível afirmar que outra reviravolta ao longo do filme é tão absurda que chega a ser risível. Contudo, em meio a esse contexto de produção inferior em relação ao anterior, o nonsense acaba conquistando o espectador de maneira inesperada.
Ao se entregar à loucura dos acontecimentos, o carisma da jovem Phoenix e as habilidades de Lang tornam-se, de fato, irresistíveis. A crítica acerca do vilão implacável do primeiro filme, que agora assume um papel heroico, também se revela pertinente no resultado final. Depois de duas horas de uma narrativa mirabolante, essa questão parece ser o menor dos problemas em O Homem nas Trevas 2. Como muitas sequências dentro do gênero, o filme promete levar a franquia a um futuro absurdo, apresentando um cenário que contrasta fortemente com as características do primeiro, mas que pode agradar aqueles dispostos a se desapegar ou a experimentar algo completamente diferente.
