História de amor trans

História de amor trans: Lala & Poppy brilham no IFFI

Kaizad Gustad Retorna ao Cinema com “Lala & Poppy”

Após mais de dez anos longe das câmeras, o cineasta Kaizad Gustad está de volta com “Lala & Poppy”. Este filme inovador, que foca em uma história de amor entre dois personagens transgêneros, fez sua estreia mundial no Festival Internacional de Cinema da Índia, realizado em Goa.

Uma Nova Perspectiva nas Narrativas Trans

“Lala & Poppy” representa uma importante mudança na forma como o cinema indiano retrata narrativas sobre diversidade de gênero. O filme traz ao elenco os atores trans Suruj Rajkhowa e Veer Singh nos papéis principais. A trama acompanha Lala, uma mulher trans, e Poppy, um homem trans, que se vêem apaixonados enquanto enfrentam seus respectivos processos de transição.

Gustad, que ganhou destaque em 1998 com “Bombay Boys”, se inspirou para esse projeto após conhecer Rajkhowa há cinco anos. Ele confessa que ficou impressionado pelo carisma e pela presença de Rajkhowa diante das câmeras. “Queria contar uma história em que o gênero não fosse um fator”, diz Gustad.

A Exploração de Dinâmicas de Gênero

A premissa do filme surge de uma questão intrigante: “O que aconteceria se um homem em transição para mulher se encontrasse com uma mulher em transição para homem?” Gustad reflete sobre como a dinâmica de gênero se desenrolaria e como uma história de amor poderia florescer a partir disso. Ele acredita que essa narrativa ainda não havia sido contada em nenhum lugar do mundo.

No entanto, o diretor admite ter suas inseguranças ao abordar esse tema como um homem cisgênero. “Eu não tinha conhecimento do assunto, e estava muito nervoso em acertar desde o início”, revela. O projeto passou por anos de pesquisa e consulta à comunidade antes de entrar em produção.

Uma Reflexão sobre Aceitação Social

O produtor Bobby Bedi, que também trabalhou em filmes inovadores como “Bandit Queen” e “Fire”, vê “Lala & Poppy” como uma resposta a uma lacuna entre aceitação legal e realidade social na Índia. “A Índia já reconheceu o terceiro gênero, mas ainda falta real aceitação”, afirma Bedi, ressaltando que muitos enfrentam dificuldades em conseguir empregos.

Ele reforça que o filme busca atingir um público além da comunidade LGBTQ+. “Não estamos fazendo um filme para o público já convertido. Queremos alcançar as pessoas em geral”, explica Bedi.

Oportunidades e Representatividade

Para Rajkhowa, que se mudou de Bhopal para Mumbai, a oportunidade de atuar em “Lala & Poppy” é única. “Eu claramente não me encaixo nos padrões clássicos de uma mulher”, afirma. “Por isso, ser considerado para o papel é algo significativo para mim.”

Já Singh, que está em processo de transição, sente que a história é profundamente pessoal. “Ver algo assim na Índia e para pessoas como nós, interpretando a nós mesmos na tela grande, é algo grandioso”, destaca.

A produção reuniu uma equipe notavelmente inclusiva, com figurinistas não-binários e maquiadores trans, criando um espaço seguro e acolhedor para todos os envolvidos.

A Evolução da Representação no Cinema

Os atores contrastam suas representações com retratos anteriores de personagens trans no cinema indiano. Rajkhowa menciona a performer Bobby Darling, que frequentemente era vista como alvo de escárnio. “Ela era retratada como objeto de riso”, observa. Os dois desejam que “Lala & Poppy” apresente personagens trans como seres humanos inteiros, vivendo amor, moda e emoções cotidianas.

Bedi se compromete a lançar o filme nos cinemas da Índia. “Não acredito na ideia de um lançamento direto em streaming. Quero que o público tenha a oportunidade de escolher”, diz. Ele já está em discussões com distribuidores.

Uma Trilha Internacional e Temas Universais

O filme foi desenvolvido no laboratório internacional de roteiristas “Stories That Travel” para garantir ressonância global. Bedi planeja inscrever o filme em festivais para aumentar a conscientização sobre a posição da Índia em questões transgêneras. “É importante que o mundo saiba onde estamos. Somos um sexto da população mundial”, afirma.

Apesar dos avanços em algumas regiões, Gustad e Bedi reconhecem o clima político global tenso em torno dos direitos trans. “Quando comecei a escrever há sete ou oito anos, havia muito mais aceitação”, diz Gustad, citando retrocessos em locais como os Estados Unidos.

No entanto, o cineasta se mantém focado em temas universais. “No final das contas, é uma história humana. Esses dois são seres humanos primeiro e, em seguida, homem ou mulher”, conclui Gustad. “Trata-se do direito de duas pessoas se amarem.”

Estão em andamento os preparativos para o próximo projeto de Gustad com Bedi, intitulado “Auto Bhagwan”, um thriller em tempo real ambientado em riquixás durante o último dia do festival de Ganpati.

A direção de fotografia fica a cargo de Himman Dhamija, com Andrew Bellety na sonorização e Ankur Tewari como supervisor musical. Michri Thejaseno é responsável pela arte e design de produção, enquanto Anthony Pandey atua como primeiro assistente de direção. Zaid Ali Khan é produtor associado, com Varsha Bedi e Himman Dhamija como co-produtores, acompanhados do produtor principal Bobby Bedi.
 
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