Estômago II reinterpreta receita clássica em nova antologia
O primeiro Estômago alcançou um status cult no cinema brasileiro com sua abordagem singela e orçamento reduzido, mas isso pertence ao passado. O segundo filme, Estômago II reinterpreta receita clássica em nova antologia, foi apresentado no Festival de Gramado 2024 antes de sua estreia nos cinemas comerciais e se destaca pela grandiosidade de sua produção.
Na sequência, Estômago II: O Poderoso Chef retoma, em certa medida, a estrutura do filme original ao mesclar duas linhas do tempo: passado e presente. Contudo, a narrativa não gira mais em torno do carismático Raimundo Nonato, interpretado por João Miguel, mas sim de Roberto, caracterizado por Nicola Siri. Roberto evolui de um ator em dificuldades a um poderoso chefe mafioso siciliano, resultando na criação de Don Caroglio, um verdadeiro Vito Corleone à brasileira.
No início, há uma frustração ao perceber que Nonato não é o protagonista da trama, mas seu papel como coadjuvante brilha, evidenciado por sua habilidade de resolver desafios culinários. A sequência apresenta Estômago como uma antologia que aborda a intersecção entre a comida e o poder, permitindo ao espectador recordar como esse universo opera. A estética do primeiro filme, ao se inspirar nas comédias italianas, se torna uma assinatura do novo longa, sendo ainda mais evidente na performance exagerada de Siri, que transita entre o português, italiano e algumas frases em inglês com facilidade.
Estômago II é uma produção que incorpora elementos do filme de máfia em sua forma mais acessível, utilizando referências que moldam nossa percepção desse subgênero, incluindo citações diretas a O Poderoso Chefão, locações na Sicília e a presença de atores italianos com uma pegada melodramática. Essa construção é uma alusão facilmente identificável globalmente, e o diretor Marcos Jorge claramente aspira a criar uma obra que dialogue com o mercado internacional, equiparando-se a grandes franquias.
A montagem dinâmica complementa a narrativa, harmonizando cenas de ação com momentos de violência típicos dos filmes de gângster. Os efeitos visuais demonstram um investimento maior, refletindo o novo orçamento. Apesar dos 16 anos que separam os dois filmes, o apelo de Estômago II não parece ter diminuído, especialmente em um cenário onde o interesse por histórias culinárias está em ascensão, como visto em programas como Masterchef e O Urso.
Entretanto, algumas decisões podem levantar questionamentos, especialmente sobre o desfecho do arco do protagonista. O primeiro filme revela o motivo da prisão de Nonato, enquanto a sequela apenas mostra como Don Caroglio se envolve com o crime, sem esclarecer sua chegada ao Brasil ou as circunstâncias de sua prisão. Essa linha solta sugere uma possível continuidade, o que contrasta com a nova abordagem antológica das narrativas. Apesar disso, Estômago II se apresenta como uma obra grandiosa, com potencial para encantar audiências globais e uma mensagem que transcende nacionalidades. Mesmo assim, a força da brasilidade ainda ressoa na forma como a culinária e o sistema prisional brasileiro são retratados, mesmo que de maneira sutil. Se a franquia seguir evoluindo, seja em uma estrutura antológica ou não, isso certamente será fruto de uma receita bem elaborada.
