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Filmes realistas: A lição surpreendente de ‘Jaws’ sobre cinema

“Jaws” e “Star Wars”: Uma Relação Desmistificada

Em uma das mais icônicas histórias sobre cinema, “Jaws” e “Star Wars” estão frequentemente associados como os irmãos gêmeos do entretenimento nos cinemas. Esses filmes protagonizaram a revolução dos blockbusters e simbolizam a ascensão do escapismo nas telonas. Contudo, neste 50º aniversário do lançamento de “Jaws”, é hora de repensar essa conexão.

A Revolução Cultural de “Star Wars”

Lançado em 1977, “Star Wars” surgiu como uma potente fantasia de ficção científica, capaz de capturar a imaginação de gerações. O impacto desse filme foi surpreendente, moldando a cultura popular voltada para a fantasia. Ele instigou a vontade do público em viver em universos paralelos, embora não tenha sido o primeiro a fazer isso — obras como “O Senhor dos Anéis” e “Duna” também exploraram essa construção de mundos.

Porém, “Star Wars” se destacou como o grande precursor da cultura cinematográfica que temos hoje.

O Impacto de “Jaws”

Ao estrear em 20 de junho de 1975, “Jaws” rapidamente se tornou o filme do verão e um verdadeiro marco nas bilheteiras. A estratégia de marketing do longa foi revolucionária: estreou em 464 salas, um feito inédito para a época, e contou com um investimento de 700 mil dólares em campanhas publicitárias na televisão. Esse impulso comercial foi crucial para transformar “Jaws” em um sucesso instantâneo, superando “O Poderoso Chefão” e se tornando o filme de maior bilheteira em apenas 78 dias.

Entretanto, o conceito de blockbuster não era realmente novo. O que estava mudando era a mentalidade de Hollywood, que passou a priorizar lucros em detrimento da qualidade.

Uma Reflexão sobre a Cultura Cinematográfica dos Anos 70

É válido questionar: até que ponto “Jaws” representa uma virada em direção ao escapismo nos anos 70? Essa época já nos brindou com sucessos como “O Destino do Poseidon” e “O Exorcista”. Eu argumentaria que “Jaws” não é mais “altamente conceitual” ou “escapista” do que esses filmes, mas sim uma obra de arte cinematográfica superior.

Apesar do sucesso avassalador de “Jaws”, que foi um passo significativo em direção a uma mudança cultural, a visão que tenho ao reassistir ao filme é a do realismo palpável que ele oferece. Cada cena, sob a direção do jovem Steven Spielberg, traz uma autenticidade que se alinha perfeitamente com a estética do Novo Hollywood.

Realismo e Empatia na Direção de Spielberg

“Jaws” não se distanciou da maravilhosa e artística produção da época, mas se integrou a ela. A cena inicial na praia lembra um estilo livre que, mais tarde, seria explorado em “Dazed and Confused”. A dinâmica familiar mostrada no lar do chefe de polícia Martin Brody (Roy Scheider) está repleta de detalhes que dão a impressão de vida real, algo que Robert Altman também fazia magistralmente.

O filme consegue transmitir uma sensação de documentário, não apenas pela técnica de gravação dos diálogos, mas pela empatia que Spielberg traz às suas personagens, elevando as cenas a verdadeiros malabares dramáticos. Isso é evidente quando o tubarão faz sua aparição, em um momento marcante que instiga tanto medo quanto fascínio.

A Autenticidade de “Jaws”

Mais do que um horror B requintado ou uma aventura de “Moby Dick” para amantes da terra, “Jaws” é uma das obras cinematográficas mais bem executadas já feitas. O filme é permeado por uma qualidade de realismo que se manifesta de mil maneiras. Seja na atuação de Lee Fierro como a mãe da criança devorada pelo tubarão, ou nas imagens inquietantes do oceano filmadas à altura da água, “Jaws” surpreende pela sua autenticidade.

Embora tenha surgido durante uma era marcada pelo Novo Hollywood, “Jaws” não a encerrou, mas sim a consolidou, demostrando que as influências de Hitchcock e Altman podiam coexistir de forma harmônica. Mesmo em sua parte final, ambientada no barco de Quint, a narrativa se torna uma batalha de pura ação, porém sempre com um senso de realismo e espontaneidade.

Uma Mensagem Atual

Cinco décadas após seu lançamento, a mensagem de “Jaws” é clara: um grande filme “escapista” não é sobre fugir da realidade, mas sim sobre utilizar essa realidade para provocar um catártico despertar em nós, permitindo que por alguns momentos, possamos escapar de nós mesmos. “Jaws” pode ter sido o primeiro blockbuster oficial de Hollywood, mas é também o contrapeso a “Star Wars”: o oposto da fantasia, um filme que homenageia a essência do cinema — refletir o mundo e nos fazer contemplar com admiração.
 
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